quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O financiamento da inovação na era IoT

Em junho do ano passado, eu publiquei aqui no blog um artigo, compartilhando os sites que visito com frequência para dar uma espiada no futuro, e entre eles eu cite o papel do crowdfunding no financiamento da revolução da Internet das Coisas. Tenho abordado este tema em diversas palestras e conversas pelo Brasil todo, e muita gente ainda olha com algum ceticismo para este tipo de financiamento.

Finalmente ontem, surgiu algo absolutamente impressionante, que demonstra o que o crowdfunding é capaz de fazer.

A Peeble, empresa que fabrica smartwatches, lançou no Kickstarter uma campanha para angariar fundos para produzir o seu novo smartwatch, o Peeble Time. A meta deles era captar US$ 500k, e surpreendentemente a meta foi atingida em 17 minutos (sim... DEZESSETE MINUTOS). Mais que isso, eles alcançaram a cifra de US$ 1M (um milhão de dólares) em exatos 49 minutos.

Neste exato momento que escrevo, eles já conseguiram levantar US$ 9.457.964,00 e notem que a campanha dura ainda mais 30 dias !

Eu tenho vontade de pegar uma máquina do tempo e voltar alguns anos no passado - não precisa nem ser muito, uns 5 ou 6 já seriam o suficiente -  e encontrar um investidor de risco ou gestor de fundo de investimento e contar pra ele que em 2015, uma empresa competente com uma boa ideia na cabeça e capacidade comprovada de execução iria conseguir levantar mais de 10 milhões de dólares através de "doações individuais" em menos de 48 horas, em sua maioria feitas por pessoas comuns como eu e você. Certamente isso iria soar como piada ou utopia, mas voilá: está sendo feito.

Do mesmo modo que fico contente em ver este tipo de iniciativa dando certo em diversos projetos que acompanho, fico com uma inveja danada em ver a dificuldade para se conseguir algo parecido aqui no Brasil. Os obstáculos são enormes e o único projeto de hardware brasileiro que conheço que passou por isso, acabou forçando a empresa a sair do Brasil para conseguir produzir o equipamento e "realizar o sonho" dos seus fundadores... Triste, porém verdade.

Conversando recentemente com um experiente empreendedor norte americano, ele me contou que a principal diferença do ambiente de negócios aqui do Brasil para o americano é que por lá, as opções para que alguém possa "jogar tudo para o alto" e perseguir o seu sonho de abrir uma empresa sem passar fome no processo são muito maiores. Desde a formação focada no empreendedorismo desde cedo na grade curricular até diversas formas de financiar uma empreitada dessas (incluindo o crowdfunding), eles possuem um leque de opções bem grande para explorar.

Claro que nem tudo são rosas, e as empresas também enfrentam dificuldades no processo, e aí mesmo que novamente nossa cultura dá um baile em quem resolver tentar algo do tipo. Por lá, se uma iniciativa de empreendedorismo dá errado, culpa-se o mercado, a conjuntura econômica ou até a falta de sorte, e não é raro ver empresas de sucesso que só deram certo após a terceira ou quarta tentativa. Por aqui, quando uma empreitada dessas dá errado, o que resta ao empreendedor é ouvir um monte de críticas do tipo "você foi maluco", "trocou o certo pelo duvidoso e se deu mal" e até "como uma pessoa casada e com família pode se dar ao luxo de uma aventura dessas", pra não citar os problemas financeiros, jurídicos e burocráticos que ainda se tem para poder encerrar de vez a aventura.

Infelizmente por aqui, somos formados para ser funcionários de alguma grande empresa, e não para empreender e por isso mesmo, a maioria das pessoas extremamente talentosas e competentes que conheço, quando têm a faca e o queijo na mão para empreender e quem sabe se tornar o próximo Steve Jobs já está casada, com dois filhos dentro de casa, e alguns financiamentos (casa, carro e etc) para pagar religiosamente todo mês... aí só "fazendo loucura" mesmo, não ?

Que a lição que o crowdfunding do projeto do Peeble nos mostre que realmente é possível financiar colaborativamente empresas e ideias inovadoras, e que de alguma forma deixa uma pulga atrás da orelha em quem pode fazer qualquer coisa para que este tipo de iniciativa possa ser utilizada no Brasil para financiar nossos projetos e empresas inovadoras.

Andando por hackerspaces, makerspaces e afins pelo Brasil afora nos últimos tempos, cada dia eu fico mais frustrado em ver tanto talento e tanta gente brilhante sendo subutilizada. Se não mudarmos isso, jamais teremos um Steve Jobs brasileiro, e quem sabe com alguma sorte, teremos uma meia dúzia que vai conseguir algum dia trabalhar para a empresa dele.

Para quem quer saber mais sobre este novo recorde do Peeble no Kickstarter, dê uma olhada neste artigo aqui.

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